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Conceitos

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Desnazificação

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Conhecemos as imagens da destruição das suásticas e de prédios utilizados durante o Terceiro Reich e tudo isso ficou na memória coletiva como um grande símbolo do fim do nazismo e da vitória da democracia. Vamos ver aqui hoje que infelizmente não foi bem assim e que é preciso olhar com desconfiança quando essa romantização da desnazificação retoma as discussões.

Uma das etapas da desnazificação foi definida na Conferência de Potsdam, que ocorreu entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, na qual foi tomada entre os Aliados a decisão de expurgar os nazistas da Alemanha e julgá-los. Tem-se o início do Julgamento de Nuremberg e a sequência de julgamentos posteriores que seguem até os dias atuais - julgamentos fracassados, feitos em países diferentes com jurisdições distintas e com um grande descrédito da própria população alemã.

Mais de 8 milhões de alemães - cerca de 10% da população - havia sido membro do NSDAP e mais outras dezenas de milhões haviam se filiado a outras organizações do Partido. Como julgar essas pessoas? Essa tarefa, como diz Ian Kershaw, se mostrou não só hercúlea como impraticável. Após a demissão em massa de funcionários do serviço público, das indústrias, da produção de alimentos, das estradas e dos correios, os Aliados perceberam que reconstruir a Alemanha era mais urgente do que levar a julgamento todas essas pessoas.

Para o Ocidente, era de fundamental importância que a democracia "vencesse" a guerra e a Alemanha era um país central para essa reconstrução europeia. Com o surgimento da Guerra Fria, a desnazificação ficou ainda mais distante no horizonte. E não é de se espantar que hoje tenhamos o ressurgimento de grupos extremistas, afinal, não é um renascimento se não houve a morte, certo? Se a ideologia nazista não morreu, ela não está renascendo agora. Ela apenas está ressurgindo para a superfície. Portanto, fica o questionamento: é possível desnazificar?

 

Indicações:
🎙 Podcast Desnazificando: #02: Desnazificação?

📚  A intérprete

📽️  O monstro ao lado

📽️  O contador de Auschwitz

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Julgando os nazistas

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📚 O Pesquisadora Explica é um projeto de divulgação científica, pautado no compartilhamento de threads (ou fios) no twitter escritas por pesquisadoras das Ciências Humanas. Para acompanhar o projeto, basta seguir no twitter.com/pesquisadoraexp.

📑 Nossa coordenadora Maria Visconti fez um fio sobre o processo de julgamento dos nazistas no pós Segunda Guerra Mundial, trazendo inclusive uma reflexão para os julgamentos mais recentes. Para quem não sabe, a Maria, no seu doutorado na UFMG, pesquisa as narrativas que os nazistas constroem sobre si mesmos e sobre o Terceiro Reich durante o Julgamento de Nuremberg, o primeiro do julgamento dos nazistas, ocorrido entre 1945 e 1946.

Clique aqui para ler o fio na íntegra.

➡️ Sigam a gente no twitter porque também estamos sempre postando fios por lá: twitter.com/nepat_ufmg!

 

Indicações:
🎙 Podcast Desnazificando: #02: Desnazificação?

➡️  Sequência sobre Desnazificação

📚  A intérprete

📽️  O monstro ao lado

📽️  O contador de Auschwitz

➡️  Sobre um dos julgamentos mais recentes

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Fascismo

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O termo “fascismo“ tem sido a cada dia mais utilizado em diversos contextos: dos meios de comunicação aos ambientes políticos, temos visto “fascista” tornar-se uma ofensa comum. Entretanto, o conceito de difícil definição se apresenta como um desafio metodológico para pesquisadores que buscam melhor compreender o que ele designa. Tentaremos, aqui, entender um pouco melhor quais as questões e sentidos que essa palavra carregada de história nos traz.

A origem dessa palavra remonta ao Império Romano, e foi mobilizada por Benito Mussolini como forma de reafirmar a força estatal, mas o fascismo italiano está longe de ser o único que reivindicou tal significado e não há consenso sobre quais outras experiências foram, de fato, fascistas. Alguns autores apontam para o Salazarismo e Franquismo como regimes que alargaram a fila do fascismo, como Umberto Eco, mas Emilio Gentile, outro historiador, afirma na contramão, que sem o elemento totalitário, não podemos denominar um movimento de extrema direita de fascista. Mas, como então, compreendê-lo?

Edda Saccomani mostra que podemos pensar em duas perspectivas: as singularizantes, que recorrem a fatores estreitamente ligados às particularidades de uma determinada realidade nacional, e as generalizantes, “que consideram o Fascismo como um fenômeno supranacional que apresentou, nas diversas formas de que historicamente se revestiu, características essencialmente análogas, resumíveis num conjunto de fatores homogêneos“. Para pensar em movimentos fascistas hoje, estamos mobilizando teorias generalizantes, que buscam captar as novas roupagens que tais manifestações podem adquirir.

Portanto, acreditamos ser necessário pensar que existem fascismos, diferentes entre si, adaptados às realidades nacionais mais diversas, mas que mobilizam elementos por vezes comuns, como: o culto à tradição, o nacionalismo, o racismo, o paramilitarismo, o machismo, o tradicionalismo, a irracionalidade, a criação de um inimigo, entre outros. Estes não formam um conjunto coeso, mas servem de alerta para a possibilidade de ascensão de um fascismo.

Indicações:

🎙 Podcast Desnazificando: #04: Dicionário de conceitos: Fascismo

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Trabalhar em direção ao Führer

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Arthur Greiser, membro da SS e governador geral do território ocupado polonês denominado pelos nazistas de Wartheland, em 1942, recomenda o extermínio de 35 mil poloneses com tuberculose. Ao encontrar entraves na sua decisão, foi questionado se Hitler não deveria ser pessoalmente consultado sobre o extermínio. A essa dúvida, Greisler responde: "Eu mesmo não acredito que o Führer precise ser questionado novamente sobre este assunto, especialmente porque em nossa última discussão a respeito dos judeus, ele me disse que eu poderia prosseguir com isso de acordo com meu próprio julgamento".

Para compreender esse tipo de iniciativa de membros do Partido, o historiador britânico Ian Kershaw cunha o conceito de "trabalhar em direção ao Führer" ("working towards the Führer"). O conceito, que de forma literal foi definido por um nazista em 1934 como o dever de todos de "trabalhar em direção do Führer nos moldes que ele desejaria", nos auxilia a analisar as formas de participação e colaboração dentro do Terceiro Reich.

"Trabalhar em direção do Führer" poderia querer dizer uma infinidade de coisas diferentes e perpassar por vários graus de culpa e responsabilidade distintos. Hitler, com seus discursos, dava o tom do que poderia ser interpretado e, partir daí, temos diversas formas de colaboração, dentro e fora do Partido, que eram necessárias para o resultado final da sua visão: a construção do mundo ariano.

O conceito de Kershaw é uma ferramenta de análise fundamental porque nos permite compreender as nuances das ações desses homens e mulheres que contribuíram ativamente para o nascimento e manutenção do Terceiro Reich. Ele nos auxilia a lançar o olhar para membros do alto escalão do NSDAP, como Hermann Göring, e também para os burocratas, como Adolf Eichmann. E, ainda, é uma concepção que permite analisar a participação da população, que por vezes não tem relação direta com uma identificação ideológica mas que ainda assim serve para que essa ideologia se instaure e seja perpetuada.

Ressaltamos, no entanto, que como qualquer conceito, "trabalhar em direção ao Führer" não serve para abarcar toda a extensão da experiência nazista.

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Banalidade do mal

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“O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais.”

(Hannah Arendt, “Eichmann em Jerusalém”)

Dando sequência aos nossos posts de conceito - e seguindo a Semana Hannah Arendt do NEPAT - hoje nós vamos falar sobre o conceito de banalidade do mal.

Quando Hannah Arendt embarcou para Jerusalém para assistir ao julgamento de Adolf Eichmann, ela esperava encontrar um monstro a altura dos crimes que havia cometido. Sua surpresa vem do fato de que ela se depara com uma pessoa absolutamente normal. A sua preocupação com fenômeno do mal pré-datava o julgamento, no entanto, ao escrever seu livro sobre Eichmann ela não tinha a intenção de criar uma teoria ou desenvolver um conceito. Mas a controvérsia que a publicação do seu relato despertou fez com que Arendt percebesse a importância das questões em que havia tocado.

Falar sobre a banalidade do mal não significa dizer que os crimes do regime nazista são triviais, mas sim apontar para o abismo aparentemente insuperável entre o mal extremo do totalitarismo e seus agentes. O fato de que pessoas aparentemente normais podem se transformar em genocidas sem sentir remorsos é uma questão com a qual ainda devemos nos confrontar.

A questão do pensamento é fundamental para entendermos a banalidade do mal. O que caracterizava o comportamento de Eichmann era sua incapacidade de pensar. Eichmann abandonou por completo sua faculdade de julgamento e deixou de questionar o trabalho que fazia. Ao submeter sua vontade a do regime nazista, ele abdicou de qualquer senso de responsabilidade por seus atos. Para Arendt, estava claro que Eichmann foi capaz de fazer o que fez porque deixou de lado esta atividade tão importante do espírito - o pensamento.

Indicações:
🎙 Podcast Desnazificando: #14: Hannah Arendt e a banalidade do mal [com Adriano Correia]

📚  A vida do espírito

📽️  Hannah Arendt: ideias que chocaram o mundo

📽️  Operação final

➡️  Sobre o julgamento de Eichmann

Responsabilidade flutuante

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“Creio que a missão dos sobreviventes do Holocausto é ajudar a salvar o mundo que habitamos de outras catástrofes de caráter e magnitude similares. Para isso, eles precisam ser testemunhas das tendências horripilantes e homicidas – ocultas, mas ainda muito vivas e resistentes – embutidas nos próprios alicerces de nosso modo de coexistência. Foi assim que Raul Hilberg, o maior dos historiadores do Holocausto, entendeu essa missão quando repetiu muitas vezes que a máquina de genocídio nazista não diferia em sua estrutura da organização 'normal' da sociedade alemã: era a mesmíssima sociedade desempenhando um de seus papéis 'normais', cotidianos.”

(Zygmunt Bauman, “Cegueira Moral”)


Seguindo a Semana Zygmunt Bauman do NEPAT, hoje nós vamos falar sobre o conceito de responsabilidade flutuante.

Zygmunt Bauman utiliza a Experiência de Milgram para compreender a responsabilidade pessoal dentro da cadeia de comando e para elaborar melhor a ideia de que a responsabilidade requer proximidade - física, psicológica, social, emocional. Stanley Milgram desenvolveu sua experiência científica em 1961, poucos meses antes do início do julgamento de Adolf Eichmann, e tinha por objetivo entender como a obediência a uma autoridade instituída poderia levar indivíduos comuns a realizar instruções que especificamente envolviam ferir outro ser humano.

Os resultados de sua experiência, ainda que controversos, podem nos ajudar a compreender melhor a sociedade burocratizada em que (ainda) vivemos. Em uma estrutura onde é sempre o Outro que será responsabilizado pelos meus atos, essa flutuação do peso da responsabilidade, aliada à obediência a autoridade e à produção social da distância, gera uma situação muito propícia para um processo de extermínio. Afinal de contas, o que Bauman está tentando nos mostrar, é precisamente que não são monstros que cometem atos monstruosos: são seres humanos iguais a nós. Nesse sentido, portanto, Milgram nos auxilia a diminuir o distanciamento que sentimos entre as centenas de homens obedientes que foram necessários para elaborar e instituir a chamada "Solução Final" durante o Terceiro Reich.

Indicações:
🎙 Podcast Desnazificando: #14: Hannah Arendt e a banalidade do mal [com Adriano Correia]

📽️  Documentário sobre o experimento de Milgram

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Raça [com GEAP]

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“O racismo destaca-se por um costume de que é parte integrante e que racionaliza: que combina estratégias de arquitetura e jardinagem com a da medicina a serviço da construção de uma ordem social artificial, pelo corte de elementos da realidade presente que nem se adequam à realidade perfeita visada nem podem ser mudados para que se adequem. [...] O racismo atua segundo as especificações no contexto de um projeto de sociedade perfeita e da intenção de realizar esse projeto através de um esforço planejado e consistente”

(Zygmunt Bauman, Modernidade e Holocausto)

Um dos conceitos mais amplos e ambíguos das humanidades é o conceito de raça. E por toda sua polissemia não temos a pretensão de explicar todas as suas dimensões em um só post. Nosso objetivo é demarcar como durante o século XIX esse conceito passou a ter em si um peso biológico determinante que até então era residual. Relações de alteridade e identidade que até então eram determinadas pela religião, língua, costumes e tradição, no século XIX, passarão a ser definidas majoritariamente por dois conceitos englobantes, o de raça e nação. Nesse sentido, o esforço por nomear, classificar e controlar as raças humanas passa a ser uma prioridade na agenda de cientistas e principalmente de chefes de estados ocidentais até meados no século XX e algumas dessas práticas permanecem até hoje.

É essa definição de raça e as relações de biopoder que se construíram em torno dela àquilo que mais aproxima os objetos do NEPAT e do GEAP. Embora consolidadas apenas no século XIX, essas percepções foram se construindo desde o início da modernidade, principalmente pela intensificação do contato entre europeus, africanos, asiáticos e indígenas, com o início dos processos de colonização europeia das américas. A partir de então, a noção de raça pauta as estruturas sociais e políticas, sendo mobilizada para justificar e explicar ações genocidas que acontecem de forma ininterrupta ao longo da nossa história.

Esse é o primeiro post de conceito que fizemos em conjunto com o GEAP (Grupo de Estudos de África Pré-Colonial da UFMG), de uma parceria que se iniciou esse ano. Agradecemos muito ao GEAP por embarcar nessa com a gente!